Bulking: como minimizar o ganho de gordura em 5 estratégias

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Homem negro montando marmitas com arroz, frango e feijão

Tempo de leitura: 13 min

Para minimizar o ganho de gordura durante o bulking, não basta definir o superávit calórico: a qualidade dos alimentos, o horário das refeições, o treino resistido e aeróbio e a ciclagem calórica determinam como o corpo direciona o excedente energético.

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Pontos principais

  • Em iniciantes, superávits maiores (500 a 1000kcal) podem ser usados sem grande acúmulo de gordura.
  • Em indivíduos intermediários e avançados, superávits mais modestos (300 a 500kcal) tendem a otimizar a relação massa magra/gordura.
  • Concentrar a energia nas horas de luz favorece o direcionamento de nutrientes para o músculo esquelético.
  • O treinamento é o principal fator que define se o excedente energético será convertido em tecido muscular ou armazenado como gordura.
  • A ciclagem calórica surge como uma abordagem que visa ressensibilizar o organismo a estímulos anabólicos.

O que é bulking?

O bulking é a fase do treinamento onde o indivíduo busca ganhar o máximo de massa muscular com o mínimo acúmulo de gordura. Essa fase é caracterizada pelo aumento da ingestão calórica, principalmente advindas de carboidratos, mantendo o indivíduo em superávit calórico.

O superávit calórico minimiza a degradação de proteínas musculares e favorece o ganho de massa muscular, porém, sem planejamento, esse adicional de calorias pode favorecer o acúmulo de gordura. Nesse texto, vamos entender como isso ocorre e como podemos minimizar o acumulo de gordura durante o bulking.

Mais do que o simples tamanho do superávit, a qualidade dos alimentos ingeridos, o horário das refeições, o nível do treinamento e exercício aeróbio e, até mesmo o padrão temporal do aporte calórico, como observado na ciclagem calórica, determinam como o corpo direcionará esse excedente energético.

O metabolismo não reage de maneira linear ao aumento calórico, mas de forma dependente do status fisiológico do indivíduo: sua sensibilidade à insulina, composição corporal, grau de treinamento, cronobiologia e flexibilidade metabólica. Ou seja, não é somente o superávit em si que define o ganho de gordura, mas o contexto metabólico em que ele ocorre.

Superávit calórico no bulking

1 – Superávit calórico – O tamanho do superávit é o principal determinante da magnitude do ganho de gordura durante o bulking. Embora o aumento de calorias acima do gasto energético seja um otimizador do ganho de massa magra, a proporção entre massa magra e massa gorda dependerá do tamanho do superávit, da eficiência metabólica individual e do status do organismo que o recebe.

Do ponto de vista fisiológico, quanto maior o superávit, maior o estímulo anabólico. No entanto, a capacidade do organismo de canalizar esse excedente de calorias para a hipertrofia muscular é limitada por fatores intrínsecos ao músculo esquelético, como a sensibilidade anabólica, a densidade de mionúcleos e a responsividade à mecanotransdução.

Quanto mais treinado alguém é, menor é a capacidade relativa de gerar adaptações musculares adicionais frente ao mesmo estímulo calórico e mecânico. O trabalho de Angleri e colaboradores (2022) reforça que a magnitude da hipertrofia muscular está mais associada a fatores intrínsecos biológicos (como expressão gênica, número de células satélite e composição de fibras musculares) do que à manipulação de variáveis externas, como volume de treino ou ingestão energética. Em outras palavras, o potencial de resposta anabólica torna-se progressivamente limitado conforme o indivíduo se afasta do estado de “iniciante”.

Em indivíduos iniciantes ou com genética favorável à hipertrofia, o aumento da taxa de síntese proteica e a maior sensibilidade insulínica e anabólica permitem a utilização de superávits maiores (500 a 1000kcal) sem grande acúmulo de gordura.

Por outro lado, em indivíduos intermediários e avançados a maquinaria celular envolvida na hipertrofia já opera próxima do limite fisiológico, tornando o uso de grandes superávits não apenas ineficiente, mas contraproducente. Nessas situações, o excedente energético tende a ser redirecionado para o ganho de gordura. Superávits mais modestos (300 a 500kcal) tendem a otimizar a relação massa magra/gordura, mantendo a sensibilidade à insulina.

A adoção de estratégias progressivas, com aumentos graduais e monitoramento das respostas (por meio de composição corporal, performance e marcadores subjetivos de recuperação), tende a ser mais eficaz do que a implementação abrupta de superávits elevados.

Qualidade dos alimentos no bulking

2 – Qualidade dos alimentos – Muitos indivíduos acreditam que durante o bulking o importante é apenas atingir o total calórico estabelecido no plano alimentar, sem se preocupar com a qualidade dos alimentos. É comum observar indivíduos em bulking consumidos quantidades elevadas de doces.

A literatura evidencia que diferentes matrizes alimentares, mesmo sob um mesmo aporte energético, promovem respostas metabólicas distintas. A composição da dieta, especialmente a proporção e o tipo de carboidratos e lipídios, modula a sensibilidade à insulina, a oxidação de substratos e a eficiência do armazenamento energético.

O estudo de Rosqvist e colaboradores (2019), demonstrou que a substituição parcial de gorduras saturadas por insaturadas, melhora significativamente a sensibilidade à insulina, reduz a lipogênese hepática e favorece a oxidação de ácidos graxos. Isso ocorre pelo fato de que os ácidos graxos saturados ativam vias inflamatórias (como NF-κB e JNK) que prejudicam a sinalização da insulina e aumentam o acúmulo de gordura intramiocelular. Já as gorduras mono e poli-insaturadas, especialmente provenientes de peixes, oleaginosas e azeite de oliva, exercem efeito oposto, aumentando a fluidez de membrana e a capacidade de captação de glicose pelo músculo esquelético.

Dietas ricas em carboidratos refinados, como açúcares simples e farinhas brancas, elevam acentuadamente a glicemia e a secreção de insulina, reduzindo a oxidação lipídica e aumentando a propensão ao acúmulo adiposo. Por outro lado, carboidratos integrais e ricos em fibras atenuam essas respostas glicêmicas, preservam a sensibilidade periférica à insulina e modulam a liberação de incretinas como o GLP-1, que influenciam positivamente o metabolismo energético.

Um superávit alto composto majoritariamente por fontes refinadas de carboidrato e gordura saturada promove uma condição metabólica caracterizada por hiperinsulinemia, lipogênese exacerbada e inflamação subclínica, o que facilita o acúmulo de gordura mesmo em superávits pequenos. Em contraste, dietas compostas por carboidratos complexos, gorduras insaturadas e fontes proteicas magras, como aves e peixes, mantêm a sensibilidade à insulina e favorecem o direcionamento energético ao músculo esquelético.

O estudo de Luukkonen e colaboradores (2018), demonstrou que o consumo elevado de gordura saturada, especialmente quando combinado a carboidratos de alto índice glicêmico, reduz a eficiência metabólica e aumenta o acúmulo de gordura hepática e visceral.

Esses efeitos são mediados por alterações na expressão gênica de enzimas lipogênicas (como a SREBP-1c) e pela redução da capacidade mitocondrial de oxidação de substratos. Em termos práticos, o músculo passa a “competir” menos eficientemente pela energia excedente, resultando em uma maior taxa de armazenamento lipídico.

Em um ambiente nutricional rico em alimentos fontes de gordura saturada e de carboidrato refinado, existe uma menor capacidade de direcionamento para o tecido muscular.

Cronutrição: o horário das refeições

3 – Cronunutrição – O metabolismo humano é regido por um complexo sistema circadiano que coordena a expressão gênica, o metabolismo energético e a sinalização hormonal de acordo com o ciclo claro-escuro. O timing das refeições, ou seja, o momento do dia em que a energia é ingerida, representa uma variável na forma como o organismo particiona o substrato energético, influenciando diretamente o balanço entre hipertrofia e acúmulo de gordura.

A cronobiologia metabólica demonstra que a sensibilidade à insulina e a eficiência metabólica são máximas nas horas diurnas e reduzem progressivamente à medida que se aproxima o período noturno. Durante o dia, há maior expressão de genes envolvidos na oxidação de glicose e ácidos graxos, além de maior captação de glicose mediada por insulina no músculo. À noite, em contrapartida, a atividade de genes lipogênicos e de armazenamento energético é mais pronunciada, favorecendo o acúmulo de gordura quando há oferta calórica excessiva.

O estudo de Stenvers e colaboradores (2019), revisa a interação entre os ritmos circadianos e o metabolismo energético, mostrando como o consumo calórico concentrado no período noturno reduz a sensibilidade à insulina, eleva a glicemia de jejum e altera o perfil lipídico.

O estudo de Sutton e colaboradores (2018), demonstrou que indivíduos que concentravam maior parte da ingestão calórica no período matutino apresentavam melhor controle glicêmico, maior taxa de oxidação de gordura e maior sensibilidade à insulina quando comparados a indivíduos que ingeriam as mesmas calorias predominantemente à noite. Mesmo com igual ingestão calórica total, o grupo que concentrava energia no início do dia apresentou menor ganho de gordura e melhor perfil metabólico, evidenciando que o horário da ingestão calórica modula o destino do excedente energético

Em indivíduos sob excedente calórico, concentrar energia nas janelas de maior sensibilidade insulínica, preferencialmente nas horas de luz, favorece o direcionamento de nutrientes para o músculo esquelético e reduz a propensão à deposição lipídica.

Estruturar o plano alimentar com maior densidade calórica e de carboidratos nas horas diurnas e reduzir a ingestão calórica conforme o dia avança pode otimizar o aproveitamento do superávit. Essa distribuição temporal melhora a resposta glicêmica e a sensibilidade à insulina.

Treino resistido e treino aeróbio no bulking

4 – Treino resistido e treino aeróbio – O treinamento é o principal fator que define se o excedente energético será convertido em tecido muscular ou armazenado como gordura.

O músculo esquelético é um tecido altamente plástico e sensível a estímulos mecânicos. O estudo de Lim e colaboradores (2022), evidencia que o processo de hipertrofia é mediado primariamente por vias de mecanotransdução, nas quais a deformação das fibras musculares ativa cascatas moleculares envolvendo mTORC1, FAK, YAP/TAZ e MAPK, resultando em aumento da síntese proteica miofibrilar.

Quando esse estímulo mecânico está ausente ou é insuficiente, o músculo entra em um estado de baixa sinalização anabólica e o superávit calórico acaba sendo canalizado para o armazenamento lipídico.

O trabalho de Goodpaster e Sparks (2017), reforça que o treinamento resistido é o principal determinante da capacidade do organismo em transformar energia e nutrientes em massa magra. Em indivíduos submetidos a protocolos de alta sobrecarga e volume adequado, a taxa de incorporação proteica é significativamente maior, reduzindo o risco de lipogênese mesmo sob superávits mais expressivos. O treino aumenta a expressão de transportadores de glicose (GLUT-4) e de aminoácidos (LAT1), além de elevar a sensibilidade insulínica local no músculo, favorecendo o direcionamento dos nutrientes para vias anabólicas musculares.

O papel do exercício aeróbio dentro do processo de ganho de massa é frequentemente subestimado. O aeróbio exerce papel crucial na preservação da sensibilidade à insulina, aumento da flexibilidade metabólica e melhoria da biogênese mitocondrial, reduzindo assim a probabilidade de ganho excessivo de gordura durante o bulking.

O artigo de revisão de Smith e colaboradores (2023), destaca que o treinamento aeróbio ativa o coativador PGC-1alfa, um dos principais reguladores da biogênese mitocondrial e da oxidação de substratos. Essa adaptação melhora a capacidade do músculo de alternar entre carboidratos e lipídios como fontes energéticas, a chamada flexibilidade metabólica. Quanto maior essa flexibilidade, mais eficiente é o manejo do superávit energético, pois o músculo se torna capaz de oxidar o excedente de energia, reduzindo o armazenamento lipídico.

O exercício aeróbico induz a expressão de AMPK, que atua como sensor energético celular, promovendo maior oxidação de ácidos graxos e inibindo vias lipogênicas hepáticas e periféricas. Isso explica por que indivíduos que mantêm o treino aeróbico concomitantemente ao bulking usualmente apresentam melhor composição corporal, menor acúmulo de gordura visceral e melhor sensibilidade à insulina.  A combinação de treinamento resistido e exercício aeróbico é a estratégia mais eficiente para maximizar o crescimento muscular com o mínimo de ganho de gordura.

Ciclagem calórica no bulking

5 – Ciclagem calórica – a resposta adaptativa do organismo ao superávit não é estática. Assim como ocorre com o treinamento resistido, o metabolismo também se adapta à exposição prolongada a um mesmo estímulo anabólico, tornando-se menos responsivo ao longo do tempo. Esse fenômeno justifica a possibilidade de aplicar ciclagens calóricas, ou seja, alternar entre fases de superávit e fases breves de restrição ou manutenção de calorias, como uma ferramenta para otimizar o ganho de massa muscular e, paralelamente, minimizar o acúmulo de gordura.

A revisão de Saxton e colaboradores (2018), demonstra que o metabolismo energético e o anabolismo muscular são processos altamente dinâmicos, regulados por vias que respondem tanto ao balanço energético quanto à duração e intensidade do estímulo anabólico. À medida que o ambiente hipercalórico se prolonga, uma proporção cada vez menor do excedente energético é convertida em tecido magro, e uma proporção crescente tende ao armazenamento de gordura.

Esse fenômeno pode ser explicado, em parte, pela diminuição da sensibilidade anabólica e da sensibilidade à insulina. Simultaneamente, a lipogênese tende a se acentuar, principalmente em indivíduos mais treinados, cujo potencial hipertrófico já se encontra próximo ao limite genético.

A ciclagem calórica surge como uma abordagem que visa ressensibilizar o organismo a estímulos anabólicos. Reduzir as calorias de forma estratégica, por exemplo, por períodos de 1 a 3 semanas em leve déficit ou manutenção a cada 8 a 10 semanas de superávit pode promover benefícios metabólicos sem comprometer a hipertrofia total no longo prazo.

A queda temporária na disponibilidade energética melhora a sinalização de AMPK e a sensibilidade à insulina, favorecendo o reaproveitamento mais eficiente do superávit subsequente. Além disso, períodos breves de restrição tendem a aumentar a eficiência oxidativa e a renovar a responsividade mitocondrial e muscular, mecanismos associados a uma melhor partição de nutrientes.

Conclusão

Estratégias como a individualização do tamanho do superávit, o controle da qualidade alimentar, a distribuição cronobiológica das refeições, a integração do exercício aeróbico e a aplicação da ciclagem calórica compõem um arsenal de ferramentas que permitem modular o anabolismo.

Essas abordagens não apenas reduzem o risco de acúmulo de gordura, mas também aprimoram a capacidade de transformar energia em tecido muscular de maneira proporcionalmente superior.

Referências

ZACHHUBER, P. Estratégias para evitar o ganho de gordura no bulking. Ebook

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Angleri V, Damas F, Phillips SM, et al. Resistance training variable manipulations are less relevant than intrinsic biology in affecting muscle fiber hypertrophy. Scand J Med Sci Sports. 2022;32(5):821-832. doi:10.1111/sms.14134

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28283069; PMCID: PMC5394987.

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